quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Luz



- Casa. Finalmente casa – Luís desfez o nó da gravata e se jogou no sofá. Fechou os olhos, passou a mão pelos cabelos, um tique que tinha desde sempre.
A rua estava calma, raridade para uma noite de quinta-feira. Na sala, a luz baixa refletia sobre os cabelos negros de Luís. Seu corpo desmanchava no sofá e se confundia com o resto dos móveis. Clamava para não ser incomodado, já sofrera muita irritação para um dia só. Era um fósforo pronto para ser riscado e começar uma nova combustão.
O zumbido percorria seus ouvidos. Grito de Carlos, fofoca de Silvia, tilintar de copos e talheres, a goteira do quinto andar, música alta, argh!
O vento lá fora balançava as árvores, chegava doce no ambiente e o abraçava. Os olhos foram fechando, o embalo suave lhe aconchegando... A cabeça estava se libertando do limbo e se distanciando cada vez mais de tudo. O sofá era tão acolhedor como um abraço de mãe. Os problemas teriam solução, alguma coisa semelhante à voz dela lhe sussurrou.
De repente, um choro de bebê ecoou baixinho pelo apartamento. Luís virou-se para o lado esquerdo. O choro continuou, e foi aumentando, aumentando, aumentando.  
Mãos delicadas tocaram o ombro de Luís.
- Meu amor, acorda, é a sua vez – uma voz feminina lhe disse.
Ele acordou de supetão. Esfregou os olhos. Tirou a gravata e o terno. Viu Camila com o cabelo despenteado, olheiras e sorriso nos lábios. Ela parecia completamente exausta.
Então Luís pegou a mão de Camila e beijou-a. Depois se levantou e caminhou cambaleante em direção ao quarto azul no final do corredor. Ao adentrar, se deparou com um bebê assustado. O grito saía potente dos pequenos pulmões, as lágrimas molhavam o rosto delicado. Luís olhou para aquele pequeno ser que precisava de um afago.
- O que foi? – ele perguntou, pegando o bebê no colo. Sentiu a fralda úmida – Está molhado, é, garotão? Papai vai resolver isso.
Luís sentiu o mundo naquele ser. Beijou a cabecinha frágil. Os braços do homem estavam fracos pelo cansaço. Mas não eram esses que acalentavam seu filho. Luís sabia: cada fibra do seu corpo estaria pulsando para a segurança daquele pequeno. Em meio à escuridão e o silêncio da noite, pai e filho sorriam, envolvidos pela luz fraterna.