sexta-feira, 19 de abril de 2013

All star


Um all star largado no canto da sala. Escuro, sujo e fedorento. A mãe já havia falado para ele ser colocado na área de serviço mais de três vezes. Um all star largado no canto da sala. Um mês depois, estava todo rabiscado por palavras indecifráveis, “coisa de molecada”.   
 Um all star preto largado no canto da sala que logo contrastou com uma sapatilha de lacinhos  Quando ninguém estava em casa, o all star se confundia à sapatilha e ninguém mais poderia distinguir o que era de quem. Uma dança engraçada tomada pela voracidade do pouco tempo que tinha para se apresentar no sofá.
Um all star que fazia um som inconfundível pelo corredor e se juntava a outros escuros e fedorentos. Igualmente rabiscados, mas não com as mesmas palavras, claro que não! Cada um tem sua marca, sua característica e seu odor. Mas fazem parte da mesma espécie.
Estava lá paralisado no chão do pátio. Paralisado por um chiclete de tutti frutti que ninguém teve a capacidade de jogar no lixo... Ele ficou ali, pisado pela sapatilha, e ficou tudo bem... Não que um mero chicletinho atrapalhasse a mistura gritante e contrastante daqueles dois pares de mundos diferentes...
O all star largado no canto da sala ao lado dos fones de ouvido plugados num iPod à máxima potência de produtividade e surdez. O pai já tinha avisado que daquele jeito não daria para continuar... Ah, como se ele entendesse de alguma coisa, não é? Como se ele tivesse esquecido que um dia também teve o seu, também rabiscado e sujo... Também largado no chão da sala, do quarto e até do banheiro...
O all star balançando impacientemente durante aquela prova de matemática naquela sexta-feira. Só o que ele queria era estar confraternizando com outros da sua mesma espécie naquela festa maneira, mas como o tempo demorava a passar!
Mas passou. A festa maneira chegou e lá estava o all star pisando o fio da guitarra elétrica no meio do solo eletrizante, fazendo todos os sapatos altos e sapatilhas suspirarem!
Ele não sabia. Não tinha como prever seu sucesso. A verdade é que, se pudesse falar, o all star diria: “me use bastante. Porque vai chegar a hora em que serei substituído por um par de sapatos de couro preto”.