segunda-feira, 3 de junho de 2013

O dia em que a Terra não parou

A cena foi simples, se eu realmente não estivesse tão farta de usar as muletas e a bota robocop. Na verdade, era para ser algo simples: descer as escadas, ir para a Xerox, gastar R$ 10, 65 em textos sobre o Camões, subir as escadas e ir para o Bar das freiras. Somente isso. Mas sabendo que se trata de mim, que caiu do ônibus pateticamente e até hoje nem sei o motivo, nada fica tão simples assim...
O dia estava chuvoso e as poças d’água dificultavam ainda mais o que já estava complicado. Eu podia simplesmente ter ficado ali parada, quieta, esperando alguma ajuda divina ou sei lá o quê que me ajudasse a ir para o prédio. Mas, sendo teimosa do jeito que sou – ou persistente – resolvi não esperar por nada, nem ninguém. Resolvi agir por conta própria. Eu e essa minha mania de ser independente...
Olhei para a escada empoçada, ela olhou para mim. Olhei para o céu nublado – ok, dei uma olhadinha no coleguinha louro que estava do outro lado da escada também. Imaginei uma cena romântica com chuva, uma coisa meio libertadora, sabe? Cabelos ao vento, camisa ensopada, pingos brincando no nariz – não que o coleguinha louro tivesse alguma coisa a ver com isso. Nada! Eu comigo mesma. Eu mostrando para mim mesma que sou capaz.
Respirei fundo e lá fui eu. Apoiei a muleta no chão, subi o primeiro degrau. Apoiei a muleta no primeiro degrau, subi o segundo. Até que o meu pé direito fez “splash” numa poça gigantesca. Escorreguei. Me desequilibrei. A minha reação imediata foi apoiar o pé fodido – é claro, quando você está com o pé quebrado, o que você faz? Quebra ele mais ainda!
Naquele segundo que eu segurei o corrimão, eu senti minhas bochechas ficarem vermelhas. Queria ser invisível na minha vulnerabilidade. A minha vulnerabilidade que estava me perseguindo havia quase dois meses! Ao mesmo tempo em que queria ser invisível, no fundo do meu âmago, eu queria, sim, que alguém me ajudasse. Sem ouvir “Ai meus deuses” nem “coitada”. Apenas queria alguém ali do lado, nem que fosse para dar um apoio moral – tipo “We are the champions”, saca?
Fiquei com raiva. Minto: fiquei morrendo de raiva! O meu rosto já estava ardendo em brasa. Mandei um “puta merda” – é nessa hora que sua avó que lê seus textos solta uma represália – revoltado. Mas não liberou minha raiva. Não vi se alguém escutou, não vi se alguém me viu. Nem levantei os olhos para checar. Passei direto no coleguinha louro. Não dava nem para fazer uma cena dramática – como, se eu estava toda travada?
Respirei fundo. Respirei fundo de novo. Contei até três. A raiva só passou depois do almoço, quando eu estava aquecida pelo meu yaksoba. Chegando em casa, quase caí de novo na escada da minha casa. Dessa vez não estava com fome para xingar tanto, só um “ah” bastou.

 Depois uma análise do dia, o classifico como “O dia em que a Terra não parou”. Porque para mim, meu amor, a minha Terra só vai parar quando eu colocar aquele vestido preto e dançar o show das poderosas bebendo “Sex on the beach”.