quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Corpo etéreo


   Pode ser que finalmente eu pare para respirar ao invés de chorar. Há uma grande possibilidade, não vou negar. Há uma grande possibilidade, sim, de eu estar a fim de viver tudo isso.  Meus olhos querem ver o mundo através do meu peito. E ruborizo ao encontrá-lo, mas de forma tão natural que não sinto vergonha ao perceber minhas bochechas vermelhas. E conheço pessoas que me fazem rir sem esforço. E estudo muito com a minha alma aberta ao conhecimento. 
    Meus braços se estendem para abraçar a felicidade. Não a felicidade fácil, não. A felicidade do dia-a-dia. De me descobrir viva depois de uma discussão. De sentir meu coração bater a cada manhã. De sentir minhas pupilas se dilatarem pela beleza das copas das árvores. Novo ciclo, nova era. Novo meu mundo. Nova constelação de estrelas que brilham de encontro à minh'alma. O brilho estelar que me banha de luz e faz minhas células pulsarem. Novo meu mundo, nova minha era. Corpo etéreo. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ponto verde



No meio daquela terra escura coberta por folhas e esqueletos de folhas, algo peludo e verde cintilante salta aos meus olhos. Franzo as sobrancelhas e chego mais perto. Aquele ponto berrante logo toma uma forma de uma lagarta. Debruço-me sobre a varanda, com a cabeça apoiada nos braços, pronta para perceber o que ela fará. Suas patinhas movimentam-se devagar e então percebo que não é uma lagarta... É uma centopeia. A percepção instiga-me ainda mais. A centopeia está bem à minha frente e é muito mais emocionante do que aquela mera imagem dos trabalhos de biologia do Ensino Médio...
Por quê? Porque a centopeia está manifestando-se. As patinhas traseiras são as primeiras a mexer-se, depois o movimento chega às outras, como uma onda. Para a centopeia locomover-se demora muito tempo, mas mesmo assim ela não se atropela com tantos pés. Ela parece saber muito bem a dimensão dela sobre ela mesma. Tenta subir numa folha marrom. Tomba de lado, quase cai. Mas não cai. Continua tentando subir até que, após longos minutos, consegue. Eu sorrio.
- Isso aí, pequena centopeia! – comemoro.
Em cima da folha, ela resolve continuar em frente. Não sei qual é seu objetivo, mas é emocionante ver como ela traça seu caminho: devagar, pé ante pé – e olha que são cem patas! – completamente segura. Seus pelos eriçam-se toda vez que ela movimenta-se.
Não posso tocá-la, pois corro o risco dela me queimar. Além do mais, não quero interromper nem um instante...
Mostre-me seu caminho” peço a ela por pensamento.
Ela parece escutar, porque obedece.
Poderia mostrar a você o meu caminho” ergo as sobrancelhas “Mas, infelizmente, não sou como você. Queria ser...”.
Minha amiga continua andando.
- Você está aí – minha mãe prega-me um susto.
- Sim, estou – respondo.
- Não te vi.
Viro-me para ver a minha mais nova amiga e ela desaparece da minha vista. Não entendo nada... Tudo bem, afinal de contas, estou longe de entender muita coisa...


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Concha



Areia no pezinho esquerdo, areia no pezinho direito. Para. Olha para baixo. Vê. Se abaixa e pega. Não gosta, está furada. Devolve-a. Areia no pezinho esquerdo, areia no pezinho direito. Estremece com a sensação gelada. Vento no rosto, liberdade. Olha para baixo. Vê de novo. Se abaixa para examiná-la. Tão bonita dessa vez com suas listras profundas... Pega. Corre, corre, corre com ela em uma das mãos. Água no pezinho esquerdo, água no pezinho direito e a concha esquecida no baldinho.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Ciclo
Joguei tudo para o alto. Joguei-me no chão. O chão girou. O giro estremeceu as paredes. As paredes dançaram sob minhas retinas. Minhas retinas choraram. O choro atingiu meu âmago. O meu âmago sangrou. Eosanguejorrouparaoaltoeatingiuaparedeeescorreuparaochãoevoltouparaasminhasretinas. Minha vida inteira em 5 segundos... Os 5 segundos voltando para a minha vida.