No meio
daquela terra escura coberta por folhas e esqueletos de folhas, algo peludo e
verde cintilante salta aos meus olhos. Franzo as sobrancelhas e chego mais
perto. Aquele ponto berrante logo toma uma forma de uma lagarta. Debruço-me
sobre a varanda, com a cabeça apoiada nos braços, pronta para perceber o que
ela fará. Suas patinhas movimentam-se devagar e então percebo que não é uma
lagarta... É uma centopeia. A percepção instiga-me ainda mais. A centopeia está
bem à minha frente e é muito mais emocionante do que aquela mera imagem dos
trabalhos de biologia do Ensino Médio...
Por quê?
Porque a centopeia está manifestando-se. As patinhas traseiras são as primeiras
a mexer-se, depois o movimento chega às outras, como uma onda. Para a centopeia
locomover-se demora muito tempo, mas mesmo assim ela não se atropela com tantos
pés. Ela parece saber muito bem a dimensão dela sobre ela mesma. Tenta subir
numa folha marrom. Tomba de lado, quase cai. Mas não cai. Continua tentando subir até que, após longos minutos,
consegue. Eu sorrio.
- Isso aí,
pequena centopeia! – comemoro.
Em cima da
folha, ela resolve continuar em frente. Não sei qual é seu objetivo, mas é
emocionante ver como ela traça seu caminho: devagar, pé ante pé – e olha que
são cem patas! – completamente segura. Seus pelos eriçam-se toda vez que ela
movimenta-se.
Não posso
tocá-la, pois corro o risco dela me queimar. Além do mais, não quero
interromper nem um instante...
“Mostre-me seu caminho” peço a ela por
pensamento.
Ela parece
escutar, porque obedece.
“Poderia mostrar a você o meu caminho” ergo
as sobrancelhas “Mas, infelizmente, não
sou como você. Queria ser...”.
Minha amiga
continua andando.
- Você está aí
– minha mãe prega-me um susto.
- Sim, estou –
respondo.
- Não te vi.
Viro-me para
ver a minha mais nova amiga e ela desaparece da minha vista. Não entendo
nada... Tudo bem, afinal de contas, estou longe de entender muita coisa...