sexta-feira, 12 de julho de 2013

Branco

   No meio do escuro, rezo por sinais, mesmo com medo. Tremo de tanto chorar, temo por tanto chorar. Por mais que tudo doa, mesmo com a cabeça girando, consigo imaginar um tempo em que tudo pode ser finalmente sincero. O silêncio das palavras já me dá a resposta que procurava, mesmo querendo não acreditar. Será tudo tão errado assim dentro do meu mundo, quando tudo que eu queria e imaginava era receber um abraço quente? Será que sou tão errada, tão exposta, tão intensa, tão ávida pelo desejo da vida que chego a assustar? 
   No meio do escuro, chego a tatear respostas cambaleantes... Respostas assustadas que me fazem me sentir ainda mais errada... Não quero que o meu passado volte, mas ao pequeno sinal ele já vem, como um lembrete sufocante. Eu tinha jurado a mim mesma que iria me trancar em cem cadeados, mas no final sempre volto a pegar as chaves... Mesmo que não queira, as chaves estão ali no canto do meu subconsciente a tilintar, a fazer bling bling e me rendo ao seu brilho. 
    As chaves que eu uso tanto para abrir caminhos, por mais tortuosos que sejam. Talvez eu as use para abrir os caminhos que não deviam ser tocados ou cogitados, como uma doação para o destinatário errado. Volto a me expor, liberando o meu escudo que eu cuidadosamente criava para não sentir mais a dor de estar falando e correndo num grande vão branco... Volto a me expor, mesmo não sendo aquela garotinha gordinha sentada na cadeira e rodeadas por livros... Mesmo não sendo mais aquela garotinha que não abria a boca para nada e vivia somente no seu próprio mundo imaginário e encantador, mas que não condizia com a realidade de um grande vão branco... Quero o branco da paz. Quero esquecer os tremeliques de uma pessoa em prantos num quarto escuro... Quero a paz da dignidade de ser feliz por ser apenas eu, aceita ou não, ignorada ou não. Quero a coragem de abrir o peito e gritar bem alto: "VEM, FELICIDADE, MORAR NESSE PEITO QUE TE ESPERA HÁ TANTO TEMPO! VEM, LIBERDADE, MORAR NESSE PEITO OCO!"
     

segunda-feira, 3 de junho de 2013

O dia em que a Terra não parou

A cena foi simples, se eu realmente não estivesse tão farta de usar as muletas e a bota robocop. Na verdade, era para ser algo simples: descer as escadas, ir para a Xerox, gastar R$ 10, 65 em textos sobre o Camões, subir as escadas e ir para o Bar das freiras. Somente isso. Mas sabendo que se trata de mim, que caiu do ônibus pateticamente e até hoje nem sei o motivo, nada fica tão simples assim...
O dia estava chuvoso e as poças d’água dificultavam ainda mais o que já estava complicado. Eu podia simplesmente ter ficado ali parada, quieta, esperando alguma ajuda divina ou sei lá o quê que me ajudasse a ir para o prédio. Mas, sendo teimosa do jeito que sou – ou persistente – resolvi não esperar por nada, nem ninguém. Resolvi agir por conta própria. Eu e essa minha mania de ser independente...
Olhei para a escada empoçada, ela olhou para mim. Olhei para o céu nublado – ok, dei uma olhadinha no coleguinha louro que estava do outro lado da escada também. Imaginei uma cena romântica com chuva, uma coisa meio libertadora, sabe? Cabelos ao vento, camisa ensopada, pingos brincando no nariz – não que o coleguinha louro tivesse alguma coisa a ver com isso. Nada! Eu comigo mesma. Eu mostrando para mim mesma que sou capaz.
Respirei fundo e lá fui eu. Apoiei a muleta no chão, subi o primeiro degrau. Apoiei a muleta no primeiro degrau, subi o segundo. Até que o meu pé direito fez “splash” numa poça gigantesca. Escorreguei. Me desequilibrei. A minha reação imediata foi apoiar o pé fodido – é claro, quando você está com o pé quebrado, o que você faz? Quebra ele mais ainda!
Naquele segundo que eu segurei o corrimão, eu senti minhas bochechas ficarem vermelhas. Queria ser invisível na minha vulnerabilidade. A minha vulnerabilidade que estava me perseguindo havia quase dois meses! Ao mesmo tempo em que queria ser invisível, no fundo do meu âmago, eu queria, sim, que alguém me ajudasse. Sem ouvir “Ai meus deuses” nem “coitada”. Apenas queria alguém ali do lado, nem que fosse para dar um apoio moral – tipo “We are the champions”, saca?
Fiquei com raiva. Minto: fiquei morrendo de raiva! O meu rosto já estava ardendo em brasa. Mandei um “puta merda” – é nessa hora que sua avó que lê seus textos solta uma represália – revoltado. Mas não liberou minha raiva. Não vi se alguém escutou, não vi se alguém me viu. Nem levantei os olhos para checar. Passei direto no coleguinha louro. Não dava nem para fazer uma cena dramática – como, se eu estava toda travada?
Respirei fundo. Respirei fundo de novo. Contei até três. A raiva só passou depois do almoço, quando eu estava aquecida pelo meu yaksoba. Chegando em casa, quase caí de novo na escada da minha casa. Dessa vez não estava com fome para xingar tanto, só um “ah” bastou.

 Depois uma análise do dia, o classifico como “O dia em que a Terra não parou”. Porque para mim, meu amor, a minha Terra só vai parar quando eu colocar aquele vestido preto e dançar o show das poderosas bebendo “Sex on the beach”.
 


sexta-feira, 19 de abril de 2013

All star


Um all star largado no canto da sala. Escuro, sujo e fedorento. A mãe já havia falado para ele ser colocado na área de serviço mais de três vezes. Um all star largado no canto da sala. Um mês depois, estava todo rabiscado por palavras indecifráveis, “coisa de molecada”.   
 Um all star preto largado no canto da sala que logo contrastou com uma sapatilha de lacinhos  Quando ninguém estava em casa, o all star se confundia à sapatilha e ninguém mais poderia distinguir o que era de quem. Uma dança engraçada tomada pela voracidade do pouco tempo que tinha para se apresentar no sofá.
Um all star que fazia um som inconfundível pelo corredor e se juntava a outros escuros e fedorentos. Igualmente rabiscados, mas não com as mesmas palavras, claro que não! Cada um tem sua marca, sua característica e seu odor. Mas fazem parte da mesma espécie.
Estava lá paralisado no chão do pátio. Paralisado por um chiclete de tutti frutti que ninguém teve a capacidade de jogar no lixo... Ele ficou ali, pisado pela sapatilha, e ficou tudo bem... Não que um mero chicletinho atrapalhasse a mistura gritante e contrastante daqueles dois pares de mundos diferentes...
O all star largado no canto da sala ao lado dos fones de ouvido plugados num iPod à máxima potência de produtividade e surdez. O pai já tinha avisado que daquele jeito não daria para continuar... Ah, como se ele entendesse de alguma coisa, não é? Como se ele tivesse esquecido que um dia também teve o seu, também rabiscado e sujo... Também largado no chão da sala, do quarto e até do banheiro...
O all star balançando impacientemente durante aquela prova de matemática naquela sexta-feira. Só o que ele queria era estar confraternizando com outros da sua mesma espécie naquela festa maneira, mas como o tempo demorava a passar!
Mas passou. A festa maneira chegou e lá estava o all star pisando o fio da guitarra elétrica no meio do solo eletrizante, fazendo todos os sapatos altos e sapatilhas suspirarem!
Ele não sabia. Não tinha como prever seu sucesso. A verdade é que, se pudesse falar, o all star diria: “me use bastante. Porque vai chegar a hora em que serei substituído por um par de sapatos de couro preto”.  

segunda-feira, 4 de março de 2013

Homenagem

  Vovó também quer brincar. Deita pelo chão, a espalhar os brinquedos com a menina. Vovó também é vaidosa, é sim! É só chegar na casa da netinha, que logo pergunta:
  - E aí? Não vai pentear meu cabelo?
  A menina corre para pegar sua maletinha e logo passa os dedos pelos cabelos da sua "cliente", para depois colocar presilha por presilha na cabeça dela.
 - Ah, mas não fica! - a menina exclama, chateada.
 - O cabelo é muito fino - a avó logo justifica.
  E ligam a televisão, na hora da novela. E vovó logo se vê vencida pelo sono. E as netinhas vão a sacudi-la. Como era possível ela cochilar na hora principal?
 A novela acaba e vão as três para o quarto. Ah, quando vovó dorme na casa de algum neto, não há um que não se delicie! A avó e suas netas colocam a camisola, mas não dormem, não! Vão tagarelar, a trocar confidências e comentários. Até chegar a hora em que adormecem, mas não sem rezar a Oração do Santo Anjo, seguida de uma Ave-Maria! 
 Vovó faz festa. Gira a saia pela sala, segurando o tabuleiro de doce. Vovó tem coração de menina. Vovó não seria vovó sem seus netos. Seus netos não seriam netos se não fossem filhos.
 Vovó é mãe. Mãe que ainda briga com os filhos às vezes, mãe que dá aquela ajudinha para pagar alguma coisa, mãe que prepara o almoço quando os filhos voltam cansados do trabalho, mãe com coração enorme.
 Vovó faz anos! E o maior presente quem ganha são os netos, os filhos, os sogros, os sobrinhos.... Um brinde a essa mulher que vai ser sempre uma menina, uma amiga, uma cozinheira, uma dançarina e uma cantora sem precedentes na história do meu coração!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Nova Isadora


Seguir seus sonhos é bom. Seguir seu coração é ótimo. Seguir seu coração e ser correspondido é melhor ainda. E eu, sempre tão tímida e envergonhada, sempre tão calada e sozinha, de repente virei essa pessoa. Essa pessoa que tomba, cai, ri, ri muito, lança olhares 43 sem vergonha, dança... Essa pessoa que corre atrás do amor. Mesmo me sentindo um pouco atirada às vezes, mas a vida é assim mesmo.
Dentro de mim só cabia os desejos. E dentro de mim mesma eles se perdiam. Desejos incompletos, banhados por ilusões que eu mesma criava. Até que as pessoas começaram a me sacudir. A vida começou a me sacudir, e foi me mostrando para eu parar de ser tão quieta, para eu reagir quando ela me chamasse. Muitas vezes ela precisa mesmo gritar para eu dar ouvidos a ela.
Não sabia mesmo. Não tinha ideia que ser você mesmo era tão gratificante, tão bom. Não sabia mesmo que alguém pode gostar de você pelo que você é. Sentir-se bem, agindo naturalmente como um bebê que abre seus olhos ao ver algo novo. Encontrar pessoas que me acompanhem, que me abracem do jeito que eu quero, pessoas que se importem: isso é um sonho realizado para mim. E enquanto caminho, cada vez mais deixo a imagem de quem eu queria ser para trás e cada vez mais incorporo essa imagem a mim.
Isso é tudo que eu sempre quis na minha vida. Sentir-me desejada, completa, feliz. Feliz por ser essa Isadora. Essa Isadora que pode conseguir, se ela acreditar. Sentir-me parte de alguma coisa é tão novo, tão lindo que eu só consigo embaçar a minha visão com as lágrimas doces que banham o meu rosto. O meu peito incha. O meu peito infla de felicidade, chegando a não caber mais aqui dentro.
Lutar por seis anos da minha vida pela minha adaptação, pelo meu reconhecimento perante as pessoas é muito para mim. Aturar por seis anos a decepção de uma amizade desfeita, o coração partido mil vezes, a solidão, a sensação de estar escondida entre os livros, a sensação de nunca ser boa o bastante: isso tudo finalmente deu lugar a uma nova Isadora. Uma Isadora que respira!
Estou pronta. Pronta para o inesperado. Quero realizar o que vive dentro de mim.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Jogo


Ela olhou para ele, ele olhou para ela. Conversaram por um instante. Tudo sempre tão natural, normal, sem pretexto de nada. Ela falando bobeiras engraçadas e ele olhando pelos cantos. Ela rindo, e ele acompanhando. Ele quase caindo em cima dela e pedindo desculpas. Ela sentindo os cabelos ao vento e se libertando. Eles chegando à boate.
                Ele experimenta o drinque. Ela ri para os amigos. Ele começa a dançar. Ela começa a dançar. Ele tira os óculos. Ela joga o cabelo. Ela repara nele despretensiosamente. Ele faz o mesmo. Os olhares se encontram. A amiga pede uma foto. Ela pega na cintura dele. Ele pega nos ombros dela.
E de repente, ele perguntando se sim, e ela dizendo que sim. Os lábios se tocando. Os dedos dela nos cabelos dele e um calor dentro dela. A língua dele na boca dela e o coração dele acelerado. Os braços dela pousando no pescoço dele. As mãos dele descendo do ombro para os quadris dela. A música na cabeça dela, e ele...
Um beijo, dois, três... Um abraço, uma dança, um cheiro, uma lembrança. No dia seguinte, um pedido de amizade dele. O coração dela disparando e o dedo tremulando “confirmar”. Ela falando besteiras para ele. Ele envergonhado. Ela envergonhada.
Ela evitando, ela com medo, ela chacoalhando, ela sorrindo, ela sonhando. Ele estudando. Desviando. Lendo e olhando. Os dois vivendo. Até se encontrarem de novo numa noite de sábado e ele olhar para ela, ela olhar para ele. Até conversarem por um instante. Ela continuando a falar bobeiras e ele continuando a olhar para os cantos.  Os dois dançando. Até tudo começar de novo com um beijo surpreendentemente gostoso.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Líquido



Água no corpo, água gelada na alma como se pudesse espantar todos seus pensamentos. Mas não pode. Narinas fechadas, som de bolhas e espuma estourando. “Como isso foi acontecer?” pergunta-se. “Quero fugir, não quero ver esse corpo nunca mais... Sangue esparramado pela sala. Não importa o que digam, não importa o que pensem, não sou forte o suficiente, mas tenho que ser forte o suficiente... ‘Estamos junto a você nesse momento duro’... Obrigada pelo apoio, mas ninguém sabe... É como uma punhalada no peito dez vezes mais forte. Na minha frente, porra, foi na minha frente!” repete a última palavra algumas vezes para reforçar o seu pensamento. “Gritos, gritos e gritos. Polícia me interrogando sei que foi ele... Sei que foi Fernando mas não me interessa que tenha sido Fernando, ele sempre deu indícios de frivolidade anormal... Quero desmarcar a psicóloga hoje... Vai ficar me encarando com aquela cara de bunda... E eu dando o meu dinheiro a ela para apenas eu falar... Falar da minha dor...” O tempo está se esgotando mas seus pensamentos não são interrompidos. “Dor, quem sabe de dor...? Por que não me juntar a ele?” O ar é comprimido em seus pulmões. “Juntar... A... Ele... Por quê? Os olhos dele antes de tudo acontecer...” A garganta arfando clamando por ar, os olhos vermelhos girando. Tudo girando...