terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Jogo


Ela olhou para ele, ele olhou para ela. Conversaram por um instante. Tudo sempre tão natural, normal, sem pretexto de nada. Ela falando bobeiras engraçadas e ele olhando pelos cantos. Ela rindo, e ele acompanhando. Ele quase caindo em cima dela e pedindo desculpas. Ela sentindo os cabelos ao vento e se libertando. Eles chegando à boate.
                Ele experimenta o drinque. Ela ri para os amigos. Ele começa a dançar. Ela começa a dançar. Ele tira os óculos. Ela joga o cabelo. Ela repara nele despretensiosamente. Ele faz o mesmo. Os olhares se encontram. A amiga pede uma foto. Ela pega na cintura dele. Ele pega nos ombros dela.
E de repente, ele perguntando se sim, e ela dizendo que sim. Os lábios se tocando. Os dedos dela nos cabelos dele e um calor dentro dela. A língua dele na boca dela e o coração dele acelerado. Os braços dela pousando no pescoço dele. As mãos dele descendo do ombro para os quadris dela. A música na cabeça dela, e ele...
Um beijo, dois, três... Um abraço, uma dança, um cheiro, uma lembrança. No dia seguinte, um pedido de amizade dele. O coração dela disparando e o dedo tremulando “confirmar”. Ela falando besteiras para ele. Ele envergonhado. Ela envergonhada.
Ela evitando, ela com medo, ela chacoalhando, ela sorrindo, ela sonhando. Ele estudando. Desviando. Lendo e olhando. Os dois vivendo. Até se encontrarem de novo numa noite de sábado e ele olhar para ela, ela olhar para ele. Até conversarem por um instante. Ela continuando a falar bobeiras e ele continuando a olhar para os cantos.  Os dois dançando. Até tudo começar de novo com um beijo surpreendentemente gostoso.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Líquido



Água no corpo, água gelada na alma como se pudesse espantar todos seus pensamentos. Mas não pode. Narinas fechadas, som de bolhas e espuma estourando. “Como isso foi acontecer?” pergunta-se. “Quero fugir, não quero ver esse corpo nunca mais... Sangue esparramado pela sala. Não importa o que digam, não importa o que pensem, não sou forte o suficiente, mas tenho que ser forte o suficiente... ‘Estamos junto a você nesse momento duro’... Obrigada pelo apoio, mas ninguém sabe... É como uma punhalada no peito dez vezes mais forte. Na minha frente, porra, foi na minha frente!” repete a última palavra algumas vezes para reforçar o seu pensamento. “Gritos, gritos e gritos. Polícia me interrogando sei que foi ele... Sei que foi Fernando mas não me interessa que tenha sido Fernando, ele sempre deu indícios de frivolidade anormal... Quero desmarcar a psicóloga hoje... Vai ficar me encarando com aquela cara de bunda... E eu dando o meu dinheiro a ela para apenas eu falar... Falar da minha dor...” O tempo está se esgotando mas seus pensamentos não são interrompidos. “Dor, quem sabe de dor...? Por que não me juntar a ele?” O ar é comprimido em seus pulmões. “Juntar... A... Ele... Por quê? Os olhos dele antes de tudo acontecer...” A garganta arfando clamando por ar, os olhos vermelhos girando. Tudo girando...