segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ponto verde



No meio daquela terra escura coberta por folhas e esqueletos de folhas, algo peludo e verde cintilante salta aos meus olhos. Franzo as sobrancelhas e chego mais perto. Aquele ponto berrante logo toma uma forma de uma lagarta. Debruço-me sobre a varanda, com a cabeça apoiada nos braços, pronta para perceber o que ela fará. Suas patinhas movimentam-se devagar e então percebo que não é uma lagarta... É uma centopeia. A percepção instiga-me ainda mais. A centopeia está bem à minha frente e é muito mais emocionante do que aquela mera imagem dos trabalhos de biologia do Ensino Médio...
Por quê? Porque a centopeia está manifestando-se. As patinhas traseiras são as primeiras a mexer-se, depois o movimento chega às outras, como uma onda. Para a centopeia locomover-se demora muito tempo, mas mesmo assim ela não se atropela com tantos pés. Ela parece saber muito bem a dimensão dela sobre ela mesma. Tenta subir numa folha marrom. Tomba de lado, quase cai. Mas não cai. Continua tentando subir até que, após longos minutos, consegue. Eu sorrio.
- Isso aí, pequena centopeia! – comemoro.
Em cima da folha, ela resolve continuar em frente. Não sei qual é seu objetivo, mas é emocionante ver como ela traça seu caminho: devagar, pé ante pé – e olha que são cem patas! – completamente segura. Seus pelos eriçam-se toda vez que ela movimenta-se.
Não posso tocá-la, pois corro o risco dela me queimar. Além do mais, não quero interromper nem um instante...
Mostre-me seu caminho” peço a ela por pensamento.
Ela parece escutar, porque obedece.
Poderia mostrar a você o meu caminho” ergo as sobrancelhas “Mas, infelizmente, não sou como você. Queria ser...”.
Minha amiga continua andando.
- Você está aí – minha mãe prega-me um susto.
- Sim, estou – respondo.
- Não te vi.
Viro-me para ver a minha mais nova amiga e ela desaparece da minha vista. Não entendo nada... Tudo bem, afinal de contas, estou longe de entender muita coisa...


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