sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Líquido



Água no corpo, água gelada na alma como se pudesse espantar todos seus pensamentos. Mas não pode. Narinas fechadas, som de bolhas e espuma estourando. “Como isso foi acontecer?” pergunta-se. “Quero fugir, não quero ver esse corpo nunca mais... Sangue esparramado pela sala. Não importa o que digam, não importa o que pensem, não sou forte o suficiente, mas tenho que ser forte o suficiente... ‘Estamos junto a você nesse momento duro’... Obrigada pelo apoio, mas ninguém sabe... É como uma punhalada no peito dez vezes mais forte. Na minha frente, porra, foi na minha frente!” repete a última palavra algumas vezes para reforçar o seu pensamento. “Gritos, gritos e gritos. Polícia me interrogando sei que foi ele... Sei que foi Fernando mas não me interessa que tenha sido Fernando, ele sempre deu indícios de frivolidade anormal... Quero desmarcar a psicóloga hoje... Vai ficar me encarando com aquela cara de bunda... E eu dando o meu dinheiro a ela para apenas eu falar... Falar da minha dor...” O tempo está se esgotando mas seus pensamentos não são interrompidos. “Dor, quem sabe de dor...? Por que não me juntar a ele?” O ar é comprimido em seus pulmões. “Juntar... A... Ele... Por quê? Os olhos dele antes de tudo acontecer...” A garganta arfando clamando por ar, os olhos vermelhos girando. Tudo girando... 

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