Água no corpo, água gelada na
alma como se pudesse espantar todos seus pensamentos. Mas não pode. Narinas
fechadas, som de bolhas e espuma estourando. “Como isso foi acontecer?” pergunta-se. “Quero fugir, não quero ver esse corpo nunca mais... Sangue esparramado
pela sala. Não importa o que digam, não importa o que pensem, não sou forte o
suficiente, mas tenho que ser forte o suficiente... ‘Estamos junto a você nesse
momento duro’... Obrigada pelo apoio, mas ninguém sabe... É como uma punhalada
no peito dez vezes mais forte. Na minha frente, porra, foi na minha frente!”
repete a última palavra algumas vezes para reforçar o seu pensamento. “Gritos, gritos e gritos. Polícia me
interrogando sei que foi ele... Sei que foi Fernando mas não me interessa que
tenha sido Fernando, ele sempre deu indícios de frivolidade anormal... Quero
desmarcar a psicóloga hoje... Vai ficar me encarando com aquela cara de
bunda... E eu dando o meu dinheiro a ela para apenas eu falar... Falar da minha
dor...” O tempo está se esgotando mas seus pensamentos não são
interrompidos. “Dor, quem sabe de dor...?
Por que não me juntar a ele?” O ar é comprimido em seus pulmões. “Juntar... A... Ele... Por quê? Os olhos dele antes de tudo acontecer...” A
garganta arfando clamando por ar, os olhos vermelhos girando. Tudo girando...
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