sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Líquido



Água no corpo, água gelada na alma como se pudesse espantar todos seus pensamentos. Mas não pode. Narinas fechadas, som de bolhas e espuma estourando. “Como isso foi acontecer?” pergunta-se. “Quero fugir, não quero ver esse corpo nunca mais... Sangue esparramado pela sala. Não importa o que digam, não importa o que pensem, não sou forte o suficiente, mas tenho que ser forte o suficiente... ‘Estamos junto a você nesse momento duro’... Obrigada pelo apoio, mas ninguém sabe... É como uma punhalada no peito dez vezes mais forte. Na minha frente, porra, foi na minha frente!” repete a última palavra algumas vezes para reforçar o seu pensamento. “Gritos, gritos e gritos. Polícia me interrogando sei que foi ele... Sei que foi Fernando mas não me interessa que tenha sido Fernando, ele sempre deu indícios de frivolidade anormal... Quero desmarcar a psicóloga hoje... Vai ficar me encarando com aquela cara de bunda... E eu dando o meu dinheiro a ela para apenas eu falar... Falar da minha dor...” O tempo está se esgotando mas seus pensamentos não são interrompidos. “Dor, quem sabe de dor...? Por que não me juntar a ele?” O ar é comprimido em seus pulmões. “Juntar... A... Ele... Por quê? Os olhos dele antes de tudo acontecer...” A garganta arfando clamando por ar, os olhos vermelhos girando. Tudo girando... 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Corpo etéreo


   Pode ser que finalmente eu pare para respirar ao invés de chorar. Há uma grande possibilidade, não vou negar. Há uma grande possibilidade, sim, de eu estar a fim de viver tudo isso.  Meus olhos querem ver o mundo através do meu peito. E ruborizo ao encontrá-lo, mas de forma tão natural que não sinto vergonha ao perceber minhas bochechas vermelhas. E conheço pessoas que me fazem rir sem esforço. E estudo muito com a minha alma aberta ao conhecimento. 
    Meus braços se estendem para abraçar a felicidade. Não a felicidade fácil, não. A felicidade do dia-a-dia. De me descobrir viva depois de uma discussão. De sentir meu coração bater a cada manhã. De sentir minhas pupilas se dilatarem pela beleza das copas das árvores. Novo ciclo, nova era. Novo meu mundo. Nova constelação de estrelas que brilham de encontro à minh'alma. O brilho estelar que me banha de luz e faz minhas células pulsarem. Novo meu mundo, nova minha era. Corpo etéreo. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ponto verde



No meio daquela terra escura coberta por folhas e esqueletos de folhas, algo peludo e verde cintilante salta aos meus olhos. Franzo as sobrancelhas e chego mais perto. Aquele ponto berrante logo toma uma forma de uma lagarta. Debruço-me sobre a varanda, com a cabeça apoiada nos braços, pronta para perceber o que ela fará. Suas patinhas movimentam-se devagar e então percebo que não é uma lagarta... É uma centopeia. A percepção instiga-me ainda mais. A centopeia está bem à minha frente e é muito mais emocionante do que aquela mera imagem dos trabalhos de biologia do Ensino Médio...
Por quê? Porque a centopeia está manifestando-se. As patinhas traseiras são as primeiras a mexer-se, depois o movimento chega às outras, como uma onda. Para a centopeia locomover-se demora muito tempo, mas mesmo assim ela não se atropela com tantos pés. Ela parece saber muito bem a dimensão dela sobre ela mesma. Tenta subir numa folha marrom. Tomba de lado, quase cai. Mas não cai. Continua tentando subir até que, após longos minutos, consegue. Eu sorrio.
- Isso aí, pequena centopeia! – comemoro.
Em cima da folha, ela resolve continuar em frente. Não sei qual é seu objetivo, mas é emocionante ver como ela traça seu caminho: devagar, pé ante pé – e olha que são cem patas! – completamente segura. Seus pelos eriçam-se toda vez que ela movimenta-se.
Não posso tocá-la, pois corro o risco dela me queimar. Além do mais, não quero interromper nem um instante...
Mostre-me seu caminho” peço a ela por pensamento.
Ela parece escutar, porque obedece.
Poderia mostrar a você o meu caminho” ergo as sobrancelhas “Mas, infelizmente, não sou como você. Queria ser...”.
Minha amiga continua andando.
- Você está aí – minha mãe prega-me um susto.
- Sim, estou – respondo.
- Não te vi.
Viro-me para ver a minha mais nova amiga e ela desaparece da minha vista. Não entendo nada... Tudo bem, afinal de contas, estou longe de entender muita coisa...


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Concha



Areia no pezinho esquerdo, areia no pezinho direito. Para. Olha para baixo. Vê. Se abaixa e pega. Não gosta, está furada. Devolve-a. Areia no pezinho esquerdo, areia no pezinho direito. Estremece com a sensação gelada. Vento no rosto, liberdade. Olha para baixo. Vê de novo. Se abaixa para examiná-la. Tão bonita dessa vez com suas listras profundas... Pega. Corre, corre, corre com ela em uma das mãos. Água no pezinho esquerdo, água no pezinho direito e a concha esquecida no baldinho.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


Ciclo
Joguei tudo para o alto. Joguei-me no chão. O chão girou. O giro estremeceu as paredes. As paredes dançaram sob minhas retinas. Minhas retinas choraram. O choro atingiu meu âmago. O meu âmago sangrou. Eosanguejorrouparaoaltoeatingiuaparedeeescorreuparaochãoevoltouparaasminhasretinas. Minha vida inteira em 5 segundos... Os 5 segundos voltando para a minha vida.  

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Luz



- Casa. Finalmente casa – Luís desfez o nó da gravata e se jogou no sofá. Fechou os olhos, passou a mão pelos cabelos, um tique que tinha desde sempre.
A rua estava calma, raridade para uma noite de quinta-feira. Na sala, a luz baixa refletia sobre os cabelos negros de Luís. Seu corpo desmanchava no sofá e se confundia com o resto dos móveis. Clamava para não ser incomodado, já sofrera muita irritação para um dia só. Era um fósforo pronto para ser riscado e começar uma nova combustão.
O zumbido percorria seus ouvidos. Grito de Carlos, fofoca de Silvia, tilintar de copos e talheres, a goteira do quinto andar, música alta, argh!
O vento lá fora balançava as árvores, chegava doce no ambiente e o abraçava. Os olhos foram fechando, o embalo suave lhe aconchegando... A cabeça estava se libertando do limbo e se distanciando cada vez mais de tudo. O sofá era tão acolhedor como um abraço de mãe. Os problemas teriam solução, alguma coisa semelhante à voz dela lhe sussurrou.
De repente, um choro de bebê ecoou baixinho pelo apartamento. Luís virou-se para o lado esquerdo. O choro continuou, e foi aumentando, aumentando, aumentando.  
Mãos delicadas tocaram o ombro de Luís.
- Meu amor, acorda, é a sua vez – uma voz feminina lhe disse.
Ele acordou de supetão. Esfregou os olhos. Tirou a gravata e o terno. Viu Camila com o cabelo despenteado, olheiras e sorriso nos lábios. Ela parecia completamente exausta.
Então Luís pegou a mão de Camila e beijou-a. Depois se levantou e caminhou cambaleante em direção ao quarto azul no final do corredor. Ao adentrar, se deparou com um bebê assustado. O grito saía potente dos pequenos pulmões, as lágrimas molhavam o rosto delicado. Luís olhou para aquele pequeno ser que precisava de um afago.
- O que foi? – ele perguntou, pegando o bebê no colo. Sentiu a fralda úmida – Está molhado, é, garotão? Papai vai resolver isso.
Luís sentiu o mundo naquele ser. Beijou a cabecinha frágil. Os braços do homem estavam fracos pelo cansaço. Mas não eram esses que acalentavam seu filho. Luís sabia: cada fibra do seu corpo estaria pulsando para a segurança daquele pequeno. Em meio à escuridão e o silêncio da noite, pai e filho sorriam, envolvidos pela luz fraterna.